🔊 Taa (!Xóõ) — a língua com mais consoantes do que qualquer outra

Falada talvez por 2.500 pessoas na fronteira Botsuana–Namíbia, o Taa concentra cerca de 160 fonemas distintos — incluindo mais de 120 consoantes e os cinco tipos plenamente desenvolvidos de cliques — em um único inventário — por algumas medidas, o maior sistema sonoro já descrito.

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O inglês se resolve com 24 consoantes distintas. O Taa, também escrito !Xóõ, tem tantas que os linguistas não conseguem sequer concordar sobre como contá-las. O monumental estudo de 1985 de Anthony Traill, dedicado ao dialeto ǃXoon oriental, chega a pelo menos 58 consoantes fonêmicas na contagem mais cautelosa, e a descrição posterior do ǃXoon ocidental feita pelo projeto DoBeS, a pelo menos 87 — mas esses mínimos vêm de tratar os cliques mais complexos como grupos consonantais. Se em vez disso cada clique complexo for contado como um único segmento, o inventário sobe para cerca de 130 consoantes no material de Traill e 122 no do DoBeS — o número que o WALS cita ao classificar o inventário do Taa como o maior de todas as línguas documentadas. Por qualquer dessas contagens, o recorde é do Taa.

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O Taa é uma língua Tuu (anteriormente agrupada na hoje desacreditada família "Khoisan do Sul") falada em aldeias dispersas do sudoeste do Kalahari, principalmente em Botsuana, com uma comunidade menor na Namíbia. Estimativas situam a comunidade falante em cerca de 2.500 pessoas, todas bilíngues em tswana, africâner ou khoekhoegowab — portanto, embora a língua ainda não esteja moribunda, cada passagem geracional é um lance de moeda.

A extravagância fonológica tem três camadas:

🗣 Comparar línguas de cliques (Taa, Khoekhoe, Xhosa, Zulu)
IdiomaFamíliaFalantesÁguaUmDois
Taafamília tuu (antigamente khoisan meridional)~2.5Kǃqhàa/ǃqʰaː/ǂʼûã/ǂʼũã/ǂnûm/ǂûm/
Namakhoe-kwadi (Khoisan)~250Kǁgam-i/ǁɡami/ǀgui/ǀɡui/ǀam/ǀàm/
XhosaBantu (Nguni)~20Mamanzi/amaːnzi/inye/iɲɛ/mbini/mbiːni/
ZuluBantu (Nguni)~28Mamanzi/amanzi/kunye/kuɲe/kubili/kuˈɓili/

O linguista sul-africano Anthony Traill passou mais de trinta anos documentando o Taa, começando com trabalho de campo de doutorado nos anos 1970 e culminando em seu dicionário de 1994, A !Xóõ Dictionary. O trabalho instrumental de Traill — usando palatografia estática, medição aerodinâmica e imagens de raios X — mostrou que aquilo que os primeiros visitantes haviam descartado como "ruídos acidentais" eram, na verdade, articulações totalmente voluntárias com fechamentos distintos no véu e na epiglote. Ele demonstrou que um único clique do Taa pode mobilizar os três mecanismos de fluxo de ar de que a fala humana dispõe: o fluxo lingual ingressivo do próprio clique, um fluxo pulmonar egressivo para o vozeamento que o antecede e um fluxo glotálico para a soltura ejetiva que o segue — enquanto outra série ainda abaixa o véu para acrescentar a nasalização.

O argumento de Traill não era retórico, mas estatístico. Os cliques do Taa não são um canto marginal ou decorativo do inventário: são consoantes comuns da língua e, na verdade, a maneira preferida de começar uma palavra — segundo uma contagem, 82% do vocabulário básico começa por um clique, proporção muito superior à de qualquer série não-clique.

Os linguistas discordam sobre por que o Taa ficou tão "alto". Uma hipótese há muito popular — defendida de modo mais visível pelo lado da genética por Alec Knight, Peter Underhill e colegas em 2003 — é que o Kalahari foi uma zona de refúgio desde pelo menos o final do Pleistoceno, e que a extravagância fonológica é uma acumulação extremamente antiga, possivelmente espelhando a paisagem sonora de línguas de caçadores-coletores muito mais antigas, agora perdidas. Os especialistas nessas próprias línguas são bem mais céticos: Bonny Sands e Tom Güldemann argumentam que os cliques não são relíquias de uma língua-mãe ancestral, que não há na região nenhum conservadorismo linguístico especial e que a difusão dos cliques pertence a um passado humano relativamente recente, não à aurora da linguagem. Seja qual for o desfecho dessa discussão, o Taa oferece um contraponto sóbrio à ideia de que as línguas humanas "tendem à economia": quando a geografia e a demografia permitem, a fonologia pode espiralar para cima quase indefinidamente.

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O Taa é geralmente descrito como seriamente ameaçado. As poucas centenas de crianças que ainda o adquirem crescem ao lado da escolarização em tswana e de estilos de vida cada vez mais móveis. Se o Taa silenciar na próxima geração, o mundo perde não só o patrimônio de uma comunidade, mas o mais rico laboratório natural que a ciência da fonética já teve.

Fontes

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