Uma escrita que sobreviveu à sua época
A maioria dos sistemas de escrita pictográfica desapareceu há milênios. Os hieróglifos egípcios silenciaram por volta de 400 d.C.; os glifos maias deixaram de ser escritos ativamente após a conquista espanhola. A escrita Dongba (東巴文字) é uma exceção: os sacerdotes dongba dos Naxi na província de Yunnan, na China, ainda desenham à mão e recitam cerca de 1.300 símbolos pictográficos.
Os Naxi somam cerca de 320.000 pessoas, concentradas em torno de Lijiang. Os dongba são especialistas rituais hereditários — o termo significa «sábio» ou «mestre» (do tibetano ston pa, «mestre»). A escrita não serve para a leitura cotidiana, mas como suporte mnemônico para textos cerimoniais cantados.
Primeiro a imagem, depois o som
Os sinais Dongba são predominantemente figurativos: um desenho de peixe significa «peixe»; uma figura humana com os braços levantados significa «dança»; as ideias compostas são expressas combinando vários desenhos. Mas eles não são puramente figurativos. Qualquer sinal pode ser tomado emprestado apenas pelo seu som — é o princípio do rebus — de modo que um par de olhos (myə) escreve a palavra homófona «destino», uma tigela de arroz serve tanto para «comida» quanto para «sono» (xa) e um goral (se) faz as vezes de partícula gramatical. Os Naxi preservaram ainda uma segunda escrita, o silabário geba (哥巴) — raro, nunca padronizado e conservado em relativamente poucos manuscritos —, que acompanha os pictogramas para anotar a sua leitura e serve para escrever mantras, contratos e cartas.
A UNESCO e a corrida contra o tempo
Em 2003, a UNESCO inscreveu os manuscritos Dongba no Registro Memória do Mundo. Os sacerdotes dongba ativos são estimados em menos de 500, a maioria idosos.