Do Levante à Cidade Proibida
A escrita manchu — aquelas colunas verticais de laços e pontos que preenchem as estelas bilingues da dinastia Qing (1644–1912) — não nasceu na Manchúria. A sua linhagem recua mais de dois milénios, até ao aramaico, a língua administrativa do Império Persa Aquemênida no século V a.C.
A cadeia de herança: aramaico (séc. V a.C.) → sogdiano (sécs. I–X d.C.): mercadores da Rota da Seda, rodado 90° em colunas de cima para baixo → uigur antigo (a partir do séc. VIII): adotado por Gengis Khan por volta de 1206 → mongol (séc. XIII) → manchu (1599): Nurhaci ordenou a Erdeni e Gagai adaptarem o alfabeto mongol; em 1632 Dahai acrescentou pontos e círculos. Em 1764, a corte Qing transferiu soldados Sibe para Xinjiang; os seus descendentes em Qapqal mantêm a escrita e publicam o jornal Cabcal Serkin.
O parêntesis phags-pa
Houve um desvio. No século XIII o monge tibetano ʼPhags-pa concebeu para Kublai Cã uma escrita inteiramente nova, destinada a anotar todas as línguas do império mongol num sistema único. A escrita phags-pa (八思巴文) foi usada em selos oficiais e inscrições de cerca de 1269 a 1368, e as suas letras angulosas veem-se também nos selos imperiais Qing, séculos depois da queda dos Yuan. Mas o phags-pa foi uma experiência paralela, não um elo da cadeia manchu: influenciou o debate posterior sobre o hangul coreano e deixou marca na paleografia do Leste Asiático, mas o manchu descende da escrita mongol de origem uigur, não do phags-pa.
O sibe: o herdeiro vivo
O próprio manchu está hoje praticamente extinto como língua materna: talvez um punhado de idosos em aldeias remotas de Heilongjiang. A escrita, porém, continua viva. Em 1764 a corte Qing transferiu uma guarnição de bandeirantes sibe da Manchúria para a longínqua fronteira ocidental em Xinjiang — uma viagem de mais de 5000 km que durou dezasseis meses. Os seus descendentes, os sibe de Qapqal, conservaram a escrita manchu e uma língua da família manchu. Hoje as crianças sibe de Qapqal frequentam escolas em sibe e leem o bissemanário Cabcal Serkin, composto nessa mesma escrita vertical derivada do manchu que Erdeni e Gagai montaram em 1599.
Dois ramos dessa linha vertical continuam vivos. A escrita mongol permanece a escrita oficial da Mongólia Interior; a manchu sobrevive no uso diário entre os sibe de Qapqal. Juntas carregam uma letra de chancelaria cujo antepassado foi, uns 2500 anos a montante, a escrita de trabalho do império aqueménida.
A filiação completa — aramaico → sogdiano → uigur antigo → mongol → manchu → sibe — cobre cerca de 2500 anos e seis impérios distintos. O seu ramo sibe, derivado do manchu, continua em uso no condado autónomo sibe de Qapqal, em Xinjiang.