Imagine que você precise contar um pequeno evento — digamos, que João jogou futebol ontem. Em português você pode simplesmente dizer "João jogou futebol", e seu ouvinte não tem ideia se você estava na linha lateral, ouviu o vibrar do estádio na rua ao lado, deduziu pelas chuteiras enlameadas dele, ou ouviu de um amigo. As línguas da Europa deixam a fonte da informação quase totalmente não marcada.
No tuyuca — uma língua tukano oriental com cerca de 1.000 falantes na região do Vaupés na fronteira Brasil-Colômbia — você simplesmente não pode. Todo verbo finito deve carregar um pequeno sufixo indicando como você sabe o que está afirmando. Não há forma neutra. Falar sem evidencial é não ter falado uma sentença gramatical.
A descrição pioneira é o artigo de Janet Barnes de 1984. Ela catalogou cinco categorias evidenciais em tuyuca, cada uma realizada como uma terminação verbal diferente:
- Visual — o falante viu o evento com seus próprios olhos. Tuyuca: díiga apé-wi "ele jogou futebol (eu vi)".
- Sensorial não-visual — o falante ouviu, cheirou ou sentiu o evento mas não o viu. díiga apé-ti "ele jogou futebol (eu os ouvi)".
- Inferencial — o falante não percebeu o evento mas viu vestígios físicos. díiga apé-yi "ele jogou futebol (vejo o campo enlameado)".
- Suposto — o falante raciocina a partir de conhecimento geral: por exemplo, ele sempre joga aos sábados. díiga apé-hĩyi.
- Relatado — alguém disse ao falante. díiga apé-yigi "ele jogou futebol (assim dizem)".
O sistema é mais que uma convenção de polidez. É uma restrição gramatical rígida, aprendida cedo pelas crianças, e respeitada mesmo na conversa casual. Um falante de tuyuca recontando uma briga é obrigado a sinalizar — a cada oração — se a testemunhou, se a ouviu por acaso ou se lhe foi relatada. Omitir o marcador é produzir uma sentença mal formada, como dizer "ontem ele ir loja" em português.
O tuyuca não é único. A evidencialidade como categoria gramatical é encontrada em toda a família tukano, no quéchua, aimará, turco (o famoso -miş), búlgaro, coreano, em muitas línguas tibeto-birmanesas e em toda a Amazônia. A pesquisa tipológica de Alexandra Aikhenvald (2004) reuniu quase 500 línguas com evidenciais gramaticalizados. Mas o tuyuca se destaca pela granularidade de seu sistema — cinco distinções onde a maioria das línguas faz duas ou três — e por estar entre as primeiras a serem cuidadosamente descritas.
As implicações para a cognição são debatidas. Alguns pesquisadores, incluindo os herdeiros intelectuais de Lev Vigotski e a própria Aikhenvald, argumentam que marcar habitualmente a fonte de informação cultiva uma orientação diferente para a evidência e o rumor. Outros notam que falantes de português podem expressar as mesmas distinções — apenas não são forçados a isso. O consenso atual está em algum lugar no meio: a gramaticalização obrigatória torna uma categoria cognitivamente saliente, mas não torna falantes de outras línguas incapazes das mesmas distinções.
O que está claro é que o tuyuca expõe uma suposição oculta de grande parte da filosofia ocidental da linguagem: que afirmações são por padrão alegações não marcadas de "fato". Para um falante de tuyuca não há tal padrão. Cada sentença é, com efeito, prefaciada com o equivalente epistêmico de "eu vi", "eu ouvi" ou "me disseram". Uma gramática de proveniência está embutida em cada verbo.