A maioria das línguas construídas visa ser fácil. O Ithkuil é o oposto: é uma língua engendrada (uma "engelang") cujo objetivo explícito é expressar, no menor número possível de morfemas, a maior quantidade possível de informação cognitiva — ser, como diz seu criador, "um experimento idealizado de engenharia linguística".
O criador é John Quijada, um linguista americano e ex-funcionário do DMV na Califórnia, que começou a esboçar o que viria a ser o Ithkuil em 1978, depois de tentativas anteriores que chamou de Mbozo e Pskeoj. Publicou a primeira versão completa em 2004 em seu site pessoal, depois, em 2007, uma reformulação simplificada chamada Ilaksh, voltou atrás e a ampliou como Ithkuil III ("Ithkuil 2011") em 2011, refinando-a até 2020 — e em fevereiro de 2023 substituiu-a de vez por uma língua sucessora, New Ithkuil (TNIL, "The New Ithkuilic Language"). Ele nunca afirmou que o Ithkuil deveria ser uma língua de comunidade. Chama-o de experimento de pensamento.
Alguns dos parâmetros de design induzem vertigem:
- A fonologia de 2004 usava 82 fonemas (65 consoantes e 17 vogais), incluindo ejetivas, uvulares, faríngeas, tom e contrastes de duração. A revisão de 2011 a reduziu a 45 consoantes e 13 vogais: bem mais do que a maioria das línguas, mas não é recorde mundial, já que ao taa (ǃXóõ) de Botsuana se atribuem de 58 a 87 consoantes e de 20 a 31 vogais, conforme a análise.
- Substantivos se flexionam para cerca de 96 casos em algumas contagens (contra os 18 do húngaro ou os 15 do finlandês).
- Cada palavra codifica simultaneamente: configuração, filiação, perspectiva, essência, extensão, contexto e várias outras categorias que não têm equivalente real em português.
- Verbos carregam marcação obrigatória de validação — como o falante sabe a informação (observação direta, inferência, ouvir dizer, intuição, etc.) — em um sistema muito mais elaborado do que qualquer sistema natural de evidencialidade.
Uma famosa frase de exemplo da gramática de Quijada:
Tram-mļöi hhâsmařpţuktôx.
"Pelo contrário, penso que pode acontecer de esta cadeia montanhosa acidentada se atenuar em algum ponto."
Duas palavras. Uma frase completa em português. Essa densidade é o ponto inteiro.
O Ithkuil saltou para a fama mais ampla em dezembro de 2012, quando Joshua Foer publicou um perfil em The New Yorker intitulado "Utopian for Beginners". Foer relatou que em torno da língua havia surgido um público de fala russa entre os adeptos da "psiconética", um movimento de desenvolvimento pessoal: em julho de 2010 Quijada foi levado a um congresso em Elista, capital da república russa da Calmúquia, e em maio de 2011 a um segundo em Kiev. No congresso de Kiev, Oleg Bakhtiyarov — o psicólogo que liderava o movimento e dirigia uma pequena instituição privada chamada "Universidade do Desenvolvimento Eficaz", e nada linguista — anunciou que, a partir do semestre seguinte, o Ithkuil seria matéria obrigatória do currículo daquela escola em Kiev e em três campi filiais. Cada vez mais desconfortável com o grupo, Quijada recusou o convite seguinte de Bakhtiyarov.
O próprio Quijada admitiu que não consegue falar Ithkuil fluentemente. Gerar uma única sentença em tempo real requer escolher conscientemente entre dezenas de categorias gramaticais antes de abrir a boca. Disse em entrevistas que, mesmo após trinta anos, às vezes precisa de minutos para compor uma única sentença em sua própria língua.
O Ithkuil é um fracasso? Apenas se medirmos línguas construídas pelo tamanho da comunidade. Como peça de arquitetura linguística — uma demonstração sustentada, de décadas, de quanto significado o trato articulatório humano pode ser feito a carregar por segundo de fala — não tem par. Está para o esperanto como um foguete Saturno V está para uma bicicleta: ninguém vai trabalhar nele, mas mostra o que é fisicamente possível.