Em 1036 EC, o imperador Li Yuanhao da dinastia Xia Ocidental (Xixia / 西夏) decretou que seu povo, os tangutes, deveria ter um sistema de escrita digno de si. Seu erudito Yeli Renrong teria inventado toda a escrita em poucos anos — cerca de 6.000 logogramas, cada um um projeto novo, deliberadamente parecido, mas sem tomar emprestado do chinês. O resultado é o tangute (西夏文): um dos sistemas de escrita mais visualmente densos já criados.
O império Xia Ocidental, centrado no que é hoje Ningxia e Gansu no noroeste da China, durou quase dois séculos — tempo suficiente para produzir cânones budistas, dicionários, códigos legais, histórias dinásticas e uma vasta burocracia, tudo em tangute. Então, em 1227, os mongóis de Gengis Khan arrasaram-no. O tangute sobreviveu séculos ao próprio império. Comunidades dispersas para leste continuaram a escrevê-lo como língua litúrgica e erudita, e os últimos textos tangutes datáveis são dois pilares budistas de dhāraṇī erguidos em Baoding, em Hebei — cerca de 800 km a leste da antiga capital de Xixia — em 1502, em plena dinastia Ming. Depois disso a escrita desapareceu do uso ativo.
O que os linguistas eventualmente redescobriram foi uma língua sino-tibetana — muito provavelmente no ramo qiang — com uma oposição de apenas dois tons (plano 平聲 e ascendente 上聲), complexos encontros consonantais iniciais reconstruídos a partir de tabelas de rimas, e uma predileção por logogramas compostos em que os radicais são emprestados uns dos outros em vez de qualquer ancestral chinês. Um caractere tangute típico tem 15–20 traços; alguns têm mais de 30.
- Criada, não evoluída. Diferentemente do chinês, cujos caracteres cresceram organicamente ao longo de milênios, cada logograma tangute foi projetado de uma vez, em uma única oficina imperial. Esta é uma das pouquíssimas escritas "construídas" em grande escala na história humana.
- Fonologia por tabela. Como nenhum falante nativo sobrevive, toda a reconstrução do som tangute depende de dicionários bilíngues de rimas — especialmente o Wénhǎi (文海) e o Tóngyīn (同音), que agrupam caracteres por inicial, rima e tom.
- Uma biblioteca budista subterrânea. Em 1908, o explorador russo Piotr Kozlov chegou à cidade em ruínas de Khara-Khoto e começou a escavar; ao regressar, em junho de 1909, abriu uma estupa fora das muralhas e enviou milhares de livros e manuscritos tangutes para São Petersburgo — ainda a maior coleção do mundo.
Quem mais contribuiu para decifrá-lo foi Nikolai Nevsky (1892–1937), um japanólogo russo que passou os anos 1920 no Japão e em Taiwan. Dedicou-se ao tesouro de Khara-Khoto já em 1925, quando ainda vivia no Japão, e depois de voltar a Leningrado em 1929 passou a década seguinte a desvendar sua estrutura fonológica e a compor o primeiro dicionário tangute-russo. Sua obra-prima, Tangutskaya Filologiya, foi publicada postumamente em 1960 — Nevsky havia sido fuzilado no Grande Expurgo de Stalin em 1937. Foi agraciado com o Prêmio Lenin após a morte.
Mais tarde, Mikhail Sofronov refinou a reconstrução fonológica nos anos 1960; Ksenia Kepping trabalhou em gramática e textos rituais; hoje pesquisadores em Pequim, Quioto, Taipé e São Petersburgo continuam a publicar edições de manuscritos recém-catalogados. Questões significativas permanecem — o sistema tonal exato, a posição genética mais profunda dentro do sino-tibetano, o significado de dezenas de caracteres raros que ocorrem apenas uma ou duas vezes no corpus.
O tangute é um lembrete de que "língua morta" raramente é um veredicto final. Uma escrita inventada em uma única década, usada por milhões, esquecida por quatro séculos, ainda pode ser persuadida a voltar à fala — desde que alguém seja teimoso o suficiente para passar uma vida em tabelas de rimas.